As lagoas de Alagoas não são apenas paisagens naturais ou pontos de interesse turístico. Elas ajudam a explicar como o território foi ocupado, como cidades surgiram, quais atividades econômicas se desenvolveram e até por que o estado recebeu o nome que tem.
A relação é especialmente forte no litoral central, onde estão as lagoas Mundaú e Manguaba. Juntas, elas formam o Complexo Estuarino-Lagunar Mundaú-Manguaba, uma área marcada por canais, manguezais, ilhas e comunidades que historicamente dependem da pesca, do transporte e do comércio ligados às águas.
A origem do nome Alagoas costuma ser associada à presença de numerosas lagoas no território. A explicação mais difundida, porém, está ligada sobretudo às chamadas Alagoa do Norte e Alagoa do Sul, denominações históricas relacionadas às atuais lagoas Mundaú e Manguaba. O uso da expressão “das Alagoas” se consolidou para identificar a região e, posteriormente, a unidade administrativa.
Por que as lagoas estão ligadas ao nome Alagoas
Durante o período colonial, os cursos d’água e as áreas alagadas eram referências fundamentais para quem circulava pelo território. Em uma época de poucas estradas e grandes dificuldades de deslocamento, rios, canais e lagoas serviam como caminhos naturais, pontos de abastecimento e marcos para a localização de povoados e propriedades.
Na região central do atual estado, dois grandes espelhos d’água se destacavam: a lagoa Mundaú, também associada à antiga Alagoa do Norte, e a lagoa Manguaba, conhecida em determinados registros como Alagoa do Sul. A área ocupada entre esses sistemas passou a ser identificada como “as Alagoas”.
Um plano de desenvolvimento da Região das Lagoas, elaborado no âmbito do governo federal, registra que o povoamento inicial do território alagoano se organizou em três áreas principais: Porto Calvo, ao norte; a região das lagoas, no centro; e Penedo, ao sul, às margens do rio São Francisco. A mesma publicação relaciona o nome histórico “das Alagoas” às lagoas Mundaú e Manguaba e a outros ambientes lagunares do litoral.
Por isso, dizer que as lagoas explicam o nome do estado não significa apenas fazer referência à quantidade de áreas alagadas. Trata-se também de reconhecer que essas formações naturais funcionaram como referências geográficas e contribuíram para a organização política e econômica da região.
Mundaú e Manguaba: as principais referências históricas
A lagoa Mundaú está ligada à paisagem de Maceió e de municípios vizinhos, enquanto a lagoa Manguaba banha áreas de Marechal Deodoro, Pilar e outras localidades. Os dois ambientes são conectados por uma rede de canais e sofrem influência das águas dos rios, das marés e do oceano Atlântico.
O Instituto do Meio Ambiente de Alagoas descreve o Complexo Estuarino-Lagunar Mundaú-Manguaba como um sistema formado pelas duas lagoas e por uma extensa rede de canais interlagunares. O órgão destaca a importância ambiental, histórica e socioeconômica do complexo para o estado.
As lagoas também aparecem em documentos históricos com denominações diferentes das atuais. Mundaú foi associada à Alagoa do Norte, enquanto Manguaba recebeu a referência de Alagoa do Sul. Esses nomes ajudaram a distinguir as duas áreas e foram incorporados à descrição do território em mapas, registros administrativos e relatos de viajantes.
A presença das lagoas favoreceu a formação de núcleos urbanos. A atual cidade de Marechal Deodoro, por exemplo, surgiu em uma área ligada à lagoa Manguaba e foi a primeira capital da então província de Alagoas. Antes de receber o nome atual, a localidade teve denominações como Madalena de Sabaúna, Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul e Alagoas do Sul.
Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Marechal Deodoro está localizada em uma área banhada pelas lagoas Mundaú e Manguaba e reúne edificações que refletem diferentes momentos da formação econômica, religiosa e política do estado.
As águas como caminhos e áreas de ocupação
Antes da abertura de rodovias e da expansão das ferrovias, a circulação pelo litoral e pelo entorno das lagoas dependia de embarcações pequenas, caminhos de terra e canais naturais. As lagoas facilitavam o deslocamento de pessoas, o transporte de mercadorias e a comunicação entre as comunidades.
A região das lagoas também se tornou estratégica para o escoamento da produção. Registros históricos indicam que moradores e comerciantes de áreas como Pilar, Marechal Deodoro, Satuba, Santa Luzia do Norte e Coqueiro Seco utilizavam as águas e os canais para transportar produtos e alcançar outras localidades.
Esse papel logístico ajudou a fortalecer os núcleos urbanos que se desenvolveram nas margens ou nas proximidades das lagoas. A ocupação não ocorreu de forma isolada: as águas conectavam povoados, engenhos, áreas agrícolas, portos e mercados.
O crescimento de Maceió também se relaciona a essa rede. A capital se expandiu a partir de áreas próximas a cursos d’água, manguezais e à lagoa Mundaú. O nome Maceió é associado ao termo indígena “Massayó”, tradicionalmente interpretado como referência a um local alagadiço ou a uma área de águas represadas.
Pesca, sururu e modos de vida
As lagoas influenciaram não apenas a ocupação do território, mas também os modos de vida das comunidades ribeirinhas. A pesca e a coleta de mariscos se tornaram atividades importantes para a alimentação, a renda e a identidade cultural de muitas famílias.
O sururu, molusco encontrado especialmente no Complexo Estuarino-Lagunar Mundaú-Manguaba, é um dos símbolos da culinária alagoana. A atividade relacionada ao molusco envolve coleta, beneficiamento, comercialização e preparo de pratos tradicionais.
A produção de alimentos nas lagoas também aparece na simbologia oficial do estado. O brasão de Alagoas apresenta três tainhas que representam as principais lagoas associadas à história regional: Mundaú, Manguaba e Jequiá. A presença dos peixes também remete à importância da pesca para a população.
Além do sururu e da pesca, a vida nas margens das lagoas está associada ao artesanato, às festas populares, à culinária e às técnicas tradicionais de navegação. No Pontal da Barra, em Maceió, a relação entre lagoa, pesca e produção artesanal também aparece no bordado filé, uma das expressões culturais mais conhecidas do estado.
Jequiá, Roteiro e outras lagoas
Embora Mundaú e Manguaba sejam as lagoas mais diretamente relacionadas à origem do nome Alagoas, elas não são as únicas formações importantes do estado. O território alagoano também possui lagoas como Jequiá e Roteiro, além de outras áreas menores distribuídas principalmente ao longo do litoral.
A lagoa Jequiá está associada ao município de Jequiá da Praia, que também é banhado pelas lagoas Jacarecica e Azeda. A denominação Lagoa Azeda, por exemplo, passou a identificar uma povoação da região, mostrando como os nomes das águas também deram origem a nomes de localidades.
A Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas informa que o primeiro brasão do território alagoano já representava três lagoas principais: Mundaú, ou Alagoa do Norte; Manguaba, ou Alagoa do Sul; e Jequiá. Essa representação revela como os ambientes lagunares foram incorporados à identidade política e visual do estado.
As lagoas, portanto, não formam um conjunto homogêneo. Cada uma tem características ambientais, comunidades, atividades econômicas e trajetórias históricas próprias. Em comum, elas participam da relação entre o território alagoano, o mar, os rios e as áreas de mangue.
O que as lagoas ensinam sobre a história do estado
Observar as lagoas de Alagoas ajuda a compreender que a história do estado não foi construída apenas em cidades, engenhos ou estradas. As águas também organizaram o espaço e influenciaram decisões de ocupação, circulação e comércio.
As margens das lagoas atraíram moradores porque ofereciam alimento, água, possibilidades de transporte e acesso a áreas produtivas. Com o tempo, essas comunidades cresceram e deram origem a vilas, cidades e centros comerciais.
As lagoas também revelam a combinação de diferentes heranças culturais. Povos indígenas já conheciam e utilizavam esses ambientes antes da colonização. Depois, a ocupação portuguesa reorganizou o território, criou novas denominações e incorporou as águas a uma estrutura de produção voltada principalmente para a agricultura e o comércio.
Essa história permanece visível na arquitetura de Marechal Deodoro, nos bairros ribeirinhos de Maceió, nas comunidades pesqueiras, no artesanato e na culinária. Também está presente nos nomes de municípios, povoados, rios e acidentes geográficos.
Preservar as lagoas é preservar parte da identidade alagoana
O valor das lagoas não é apenas histórico ou turístico. Elas são ambientes fundamentais para a biodiversidade, para o equilíbrio dos ecossistemas costeiros e para a sobrevivência econômica de comunidades que dependem da pesca e da coleta de mariscos.
O Complexo Estuarino-Lagunar Mundaú-Manguaba reúne manguezais, canais, ilhas e áreas de transição entre água doce e salgada. Esses ambientes são sensíveis à poluição, ao assoreamento, à ocupação desordenada e à redução da qualidade da água.
Conhecer a história das lagoas também ajuda a entender a responsabilidade de preservá-las. O nome Alagoas nasceu de uma relação profunda com essas águas, mas essa relação só continuará fazendo sentido se os ambientes forem protegidos e se as comunidades que vivem deles forem consideradas nas políticas públicas.
Assim, as lagoas contam a história do estado em várias camadas: explicam uma parte da origem do nome, orientaram o povoamento, alimentaram populações, movimentaram o comércio e ajudaram a formar símbolos da cultura alagoana. Mais do que paisagens, elas são referências vivas da formação de Alagoas.
Fontes consultadas: informações do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas, do Iphan, do Legislativo de Alagoas e do Ministério do Turismo.








